Não tenho a pretensão de escrever um tratado completo e
definitivo sobre os esforços ecumênicos em andamento na atualidade. Quero
apenas avaliar o assunto à luz da Palavra Profética. Não recorro a ela como
mera coleção das profecias registradas nas Sagradas Escrituras – no Antigo e
no Novo Testamento – mas vejo-a como base para uma perspectiva espiritual do
tempo presente, conforme Paulo escreveu: “Disto também falamos, não em
palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito,
conferindo coisas espirituais com espirituais.
Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de
Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente” (1 Co 2.13-14). O que acontece hoje, aqui e
agora, no mundo e no meio cristão? Qual o significado desses
desenvolvimentos para os cristãos verdadeiros? Até que ponto o Movimento
Ecumênico abre caminho para o cenário dos tempos finais? Que reação nosso
Senhor Jesus Cristo espera de nós? Até onde o ecumenismo já avançou e até
onde vai prosseguir? No que pensamos quando falamos de ecumenismo? No
contexto bíblico, ecumênico significa simplesmente “relativo a toda a terra
habitada; universal” ou apenas “o mundo”. Esse conceito é usado, por
exemplo, em Mateus 24.14: “E será pregado este evangelho do reino por todo o
mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim”. O sentido
bíblico do termo “ecumênico” é o da união de todos os crentes por iniciativa
do Espírito Santo.
O ecumenismo que se busca hoje, ao contrário, promove uma
união com base no que poderíamos chamar de “menor denominador comum” (usando
terminologia matemática). Seus porta-vozes confundem a unidade dos
verdadeiros crentes, como João a descreve (veja Jo 17.21-23), com a união de
igrejas e organizações ou, ampliando ainda mais sua abrangência, com a união
de todos os que de alguma forma crêem em Deus ou em alguma divindade. A
Bíblia, porém, enfatiza com muita clareza a exclusividade da verdadeira
Igreja, fundada sobre a Palavra de Deus. Encontramos menção dessa base
principalmente nos Atos dos Apóstolos: “E perseveravam na doutrina dos
apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). Através
de esforços e manobras políticas visando unir todas as organizações e
denominações jamais surgirá o que a Bíblia chama de “assembléia dos santos”,
a união dos “separados”.
A “Igreja de Deus” é um organismo espiritual, separado e
chamado para fora do mundo pelo próprio Deus por meio da obra salvadora de
Jesus Cristo na cruz, com a finalidade de ser algo especial para o louvor da
graça de Deus: “Depois de fazer sair todas as (ovelhas) que lhe pertencem,
vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz... Eu sou o
bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim... Ainda
tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas
ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor” (Jo 10.4,14,16).
É preciso adiantar que o ecumenismo não é apenas uma corrente religiosa.
Trata-se de um movimento mundial abrangente desde tempos imemoráveis. O
movimento ecumênico acontece paralelamente à mudança geral de valores da
sociedade humana e tem pontos de contato com as palavras mágicas do
“Ocidente cristão”: tolerância, paz, humanidade, justiça e preservação da
natureza. Ele propaga uma “nova espiritualidade” – seja isso o que for – e
usa uma terminologia predominantemente religiosa. Suas fontes podem ser
encontradas em movimentos políticos, culturais e sociais que buscam a
globalização em grande escala.
O ecumenismo em ofensiva no mundo inteiro O ecumenismo já
avançou mais do que geralmente se supõe. Em última análise, esse é um
caminho sem volta, pois o pensamento ecumênico que já se infiltrou em
igrejas, denominações e organizações não pode mais ser corrigido ou
extirpado. A única alternativa é pessoal: indivíduos demonstrando
determinação para se afastarem terminantemente de tudo que é relacionado a
esse movimento. O ecumenismo não se consumará somente quando todas as
igrejas, religiões e agremiações assinarem uma declaração de fé conjunta.
Isso nunca vai acontecer. Um muçulmano fundamentalista não celebrará a Ceia
do Senhor com um cristão convicto, nem um budista adorará a “Virgem Maria”
ao lado de um católico. A aspiração por uma união mundial “no campo
religioso”, segundo o lema “Não haverá paz no mundo sem paz entre as
religiões”, não quer dizer que cada religião, representada por uma comissão
de especialistas, trará suas crenças e que desse caldo se extrairá uma fé
comum. Essa forma de ecumenismo, como muitos crentes a imaginam, não é
viável e nem é o que seus defensores e fomentadores buscam. Não se trata de
aproximar declarações de fé, como aconteceu com a “Declaração Conjunta Sobre
a Doutrina da Justificação” assinada pela Igreja Católica e por igrejas
protestantes.
Esse foi apenas um “tigre de papel”. O ecumenismo tem
pretensões muito mais revolucionárias. Não se busca uma nova fé – mas um
novo “Deus” É preciso criar um novo “Deus”, que seja adequado a todos os
desejos e às condições imaginadas por todos os homens da terra. Esse ato de
criação humana é promovido e estimulado através de intensos esforços. O novo
“Deus”, ou novo conceito de “Deus”, é oposto ao Pai celeste, antagônico ao
Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Esse novo “Deus” humanamente criado será
aceito por toda a humanidade por negar o verdadeiro Criador e que Seu Filho
Jesus Cristo é “ o caminho, a verdade e a vida” (veja Jo 14.6). Segundo o
ecumenismo, não são as declarações de fé que precisam se aproximar; o
próprio Deus deve se adequar à imaginação humana. É justamente isso que
levará à adoração de um homem no final dos tempos, conforme lemos em
Apocalipse 13.11-18. “Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento
calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é
seiscentos e sessenta e seis” (v.18). O teólogo Walter G. Bauer escreveu: O
cristianismo aniquila o futuro da humanidade com o nome ‘Jesus' – essa é a
verdade! O cristianismo mata a divindade com o nome de Deus! Por isso, esse
nome não deve mais ser pronunciado, mas apenas parafraseado! Deus precisa de
um novo nome para que possa ser novamente Deus; Ele o receberá porque quer
voltar a ser Deus entre nós, para que O reconheçamos como o Deus de todos os
homens, que nos faz uma só exigência e nos impõe uma única lei: sermos todos
irmãos na grande família humana que é formada por muitos povos.
Toda a existência na face da terra terá um novo
parâmetro, e ‘Homem' será o novo nome de Deus. É constrangedor transcrever
essas afirmações. Apenas o faço para mostrar como o processo de criação de
uma nova idéia de Deus já está mais adiantado do que imaginamos. O mesmo é
comprovado pela declaração da falecida Madre Teresa de Calcutá, muito
estimada até mesmo por alguns membros de igrejas consideradas bíblicas:
Quando encontramos Deus face a face e O recebemos em nossa vida, seremos
melhores hindus, melhores católicos, melhores o que quer que sejamos, pois
devemos aceitar a Deus da forma como Ele existe em nossa imaginação”.
Ecumenismo não é a compilação de doutrinas e tradições existentes, mas a
criação de uma nova visão de mundo e de uma idéia de Deus que abrange todas
as religiões. Para ilustrar, transcrevo uma citação de uma revista católica:
A unificação das religiões, estimulada pelo Santo Padre João Paulo II e
aclamada por Sua Santidade o Dalai Lama, é o alvo que será atingido em
breve. Virá o dia em que o amor ao próximo, defendido tão enfaticamente por
Buda e Jesus Cristo, salvará o mundo, pois haverá o maior empenho conjunto
para impedir a destruição da humanidade, conduzindo-a a luz na qual todos
cremos”. Precisamos confrontar essas afirmações com a santa e eterna Palavra
de Deus.
A situação acima citada é descrita no Salmo 2: “Por que
se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se
levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e o seu Ungido, dizendo:
Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas. Ri-se aquele que
habita nos céus; o Senhor zomba deles. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de
falar e no seu furor os confundirá. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o
meu santo monte Sião. Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: Tu és
meu Filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança
e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e
as despedaçarás como um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes;
deixai-vos advertir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor e
alegrai-vos nele com tremor. Beijai o Filho para que se não irrite, e não
pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira.
Bem-aventurados todos os que nele se refugiam.” Na verdade, o Movimento
Ecumênico é um movimento anticristão, mesmo que certas igrejas afirmem o
contrário. O ecumenismo atual não se preocupa com missões, em alcançar
pessoas com a mensagem do Evangelho para que sejam salvas, mas busca o
diálogo, segundo o lema: “Creia no que eu creio e crerei na sua fé”.
Pensamentos sedutores e agradáveis
Uma frase ecumênica repetida impensadamente por muitos cristãos é: “A
doutrina separa, a oração une”. Outros adeptos do ecumenismo dizem: “Devemos
construir pontes e não muros”. Outros, ainda, anunciam: “Unidade no que é
relevante, liberdade no que é secundário e, acima de tudo, o amor”. Todos
esses pensamentos parecem muito lógicos, o que explica sua grande aceitação,
principalmente por serem repetidos por líderes eclesiásticos considerados
fiéis. Mas as três afirmações citadas são diametralmente opostas ao ensino
bíblico!
A doutrina separa, a oração une
É absolutamente verdade que a Palavra de Deus produz separação, muitas
vezes de maneira mais radical do que nós teríamos coragem de fazer. Mas será
que podemos unir em oração o que a Palavra de Deus separa e afasta? Através
da oração podemos suspender proibições e mandamentos claros de Deus? Podemos
deixar de lado a doutrina do Novo Testamento sobre o batismo ou a Ceia do
Senhor para nos unirmos em oração em torno de assuntos que consideramos mais
importantes? Que atrevimento em relação à santa Palavra de Deus, que nos diz
na Segunda Epístola de João: “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de
Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse
tem tanto o Pai como o Filho. Se alguém vem ter convosco e não traz esta
doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto
aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más” (2 Jo
1.9-11). Como podemos unir em oração o que Deus claramente separou?
Devemos construir pontes e não muros
Sem considerar que o tema pontes não é mencionado pela Bíblia e que muros
aparecem em torno de trinta vezes no texto sagrado, separação é um assunto
recorrente no Plano de Salvação. Construir muros é uma exigência de Deus e
visa distinguir amigos de inimigos (veja Is 62.6). Muros ofereciam proteção
contra os inimigos e também, simbolicamente, diante da influência exercida
por aqueles que não criam no Deus de Abraão, Isaque e Jacó (veja Is 26.1-2).
Era assim na Antiga Aliança, e na Nova Aliança encontramos a ordenança de
demarcar fronteiras e estabelecer os limites entre os renascidos e os que
apenas dizem crer em Jesus. Paulo escreve: “Ora, o homem natural não aceita
as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode
entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Co 2.14). Será que
é necessária uma exortação ainda mais clara sobre a necessidade de distinção
entre cristãos renascidos e cristãos apenas nominais? Já não houve
demasiadas decisões equivocadas e de conseqüências funestas em muitas
igrejas por terem sido dominadas por pessoas que não eram crentes? Como se
processa o “ide” de Jesus se no fundo todos “crêem” em algum deus? A quem
devo pregar o Evangelho se construo pontes, indicando que a fé e a descrença
nem se encontram tão distantes uma da outra?
A diferença que existe entre um cristão renascido e um
cristão nominal não será anulada através de uma ponte, mas somente pelo amor
de Deus. E uma das características imutáveis do amor de Deus é a verdade.
Por mais que desejemos, não existem pessoas semi-salvas; há apenas salvos e
perdidos. Quando construímos uma ponte para as pessoas perdidas, isso
acontece apenas no sentido de atraí-las para o lado da verdade, de
conduzi-las das trevas para a luz. Tal ponte serve apenas para salvação e
não para um entendimento entre cristãos nominais, dando a entender que, de
alguma forma, todos acreditamos nas mesmas coisas. Quem constrói esse tipo
de ponte torna-se culpado em relação aos que chama de cristãos sem que o
sejam realmente, com base na verdade bíblica. Unidade no que é relevante,
liberdade no que é secundário e, acima de tudo, o amor Essa fórmula de
Agostinho (citada livremente) é aparentemente lógica, mas também apresenta
dois problemas: Primeiro, ela passa a impressão de que a mensagem bíblica se
divide em partes relevantes e secundárias, importantes e sem importância, em
princípios básicos, que devem ser seguidos por todos os cristãos, e
doutrinas secundárias que cada um pode interpretar como quiser.
Isso acabou conduzindo a uma fórmula que se tornou
popular nos últimos anos: “O que importa é Jesus, o resto não interessa”.
Essa afirmação dissocia a pessoa de Jesus Cristo de Seus ensinamentos e da
missão que nos deu. O alvo de muitas iniciativas “interconfessionais” é a
conversão e não o ensino. O objetivo evangelístico justifica, por assim
dizer, os meios, e reduz as diferenças ao “menor denominador comum”. A
fórmula de Agostinho apresenta outro problema: quem decide o que é relevante
e o que é secundário? E como é possível que acima disso tudo esteja o amor
de Deus? É um grave erro adotar levianamente certas fórmulas, lemas e
ditados que até parecem profundos e espirituais mas, no final, diluem as
verdades absolutas do Evangelho. Esse é o outro tópico que quero salientar
neste artigo. O Movimento Ecumênico usa os métodos da sedução É
característica básica da sedução não ser evidente nem facilmente detectável.
Os enganadores formulam seus postulados usando terminologia espiritual,
religiosa e bíblica, mas de significado diferente. Eles encobrem e disfarçam
habilmente suas intenções e seus propósitos e é difícil decifrar o que se
esconde nas entrelinhas de certas declarações ou atrás de fatos apresentados
de maneira positiva.
Um marco no caminho em busca da “união das igrejas” foi a
assinatura da “Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação”, a
respeito da qual o Vaticano comentou: Em Augsburgo acontece hoje um fato do
maior significado. Os representantes da Igreja Católica e da Federação
Luterana Mundial assinam uma declaração a respeito de um dos principais
temas que colocou em antagonismo católicos e luteranos: a doutrina sobre a
justificação pela fé... Esse é um marco no dificultoso caminho da
restauração da plena unidade entre os cristãos... Confiemos o caminho
ecumênico à intercessão maternal da Santa Virgem. O jornal Frankfurter
Allgemeine comentou a respeito: É uma flagrante distorção dos fatos e do
texto considerar o documento revolucionário, como se ele contivesse uma
mudança na conhecida reivindicação absolutista de Roma. A doutrina da
justificação continua sendo um dos critérios imprescindíveis e não o
critério imprescindível.O próprio comentário do jornal é problemático.
Simplificando, ele diz que a assinatura do documento pelas igrejas não mudou
absolutamente nada no fato da Igreja Católica continuar reivindicando ser a
única que salva! O movimento ecumênico percorre a trilha do engano e da
sedução, pois o alvo de Satanás é confundir o maior número possível de
crentes.
Ele sabe o que a história eclesiástica comprova: a
sedução é um meio mais eficaz de diluir e enfraquecer as convicções
espirituais do que a perseguição. Em outras palavras: o cristianismo não
precisa ser eliminado ou erradicado . Basta neutralizá-lo. Com a nova idéia
globalizada de Deus o cristianismo não desaparecerá, mas será esvaziado –
ficando sem Jesus como o Caminho, a Verdade e a Vida. A reivindicação de
Jesus de ser o Salvador de todos os homens é a base do Evangelho e ao mesmo
tempo o que mais incomoda o Movimento Ecumênico.
Michael Urban
Fonte: www chamada.com.br