Autor
Tanto o estilo quanto a linguagem oferecem evidências convincentes de
que a mesma pessoa escreveu Lucas e Atos. “ O primeiro tratado” At 1.1 é,
então provavelmente , uma referência ao terceiro evangelho, como o primeiro
de uma série de dois volumes. E o fato de o escrito dedicar ambos os livros
a Teófilo também demonstra solidamente uma autoria comum. Visto que a
tradição de igreja atribui com unanimidade essas duas obras a Lucas, o
médico, um companheiro próximo de Paulo (Cl 4.14; Fm 24; 2Tm 4.11), e, como
as evidências internas sustentam esse ponto de vista, não há motivos para
contestar a autoria de Lucas.
Data
Eruditos que admitem que Lucas usou o Evangelho de Marcos como fonte
para escrever seu próprio relato datam Lc por volta do ano 70 dC. Outros,
entretanto, salientam que Lucas o escreveu antes de At, que ele escreveu
durante o primeiro encarceramento de Paulo pelos romanos, cerca de 63 dC.
Como Lucas estava em Cesaréia de Filipe durante os dois anos em que Paulo
ficou preso lá (At 27.1), ele teria uma grande oportunidade durante aquele
tempo para conduzir investigações que ele menciona em 1.1-4. Se for este o
caso, então o Evangelho de Lc pode ser datado por volta de 59-60 dC, mas no
máximo até 75 dC.
Conteúdo
Uma característica distinta do Evangelho de Lc é sua ênfase na
universalidade da mensagem cristã. Do cântico de Simeão, louvando Jesus como
“luz... Para as nações” (2.32) ao comissionamento do Senhor ressuscitado
para que se “pregasse em todas as nações” (24.47), Lc realça o fato de que
Jesus não é apenas o Libertador dos judeus, mas também o Salvador de todo o
mundo.
A fim de sustentar esse tema, Lc omite muito material que é estritamente de
caráter judaico. Por exemplo, ele não inclui o pronunciamento de condenação
de Jesus aos escribas e fariseus (Mt 23), nem a discussão sobre a tradição
judaica (Mt 15.1-20; Mc 7.1-23). Lc também exclui os ensinamentos de Jesus
no Sermão da Montanha que tratam diretamente do seu relacionamento com a lei
(mt 5.21-48; 6.1-8, 16-18). Lc também omite as instruções de Jesus aos Doze
para se absterem de ministrar aos gentios e samaritanos (Mt 10.5).
Por outro lado, Lc inclui muitas características que demonstram
universalidade. Ele enquadra o nascimento de Jesus em um contexto romano
(2.1-2; 3.1), mostrando que o que ele registra tem significado para todas as
pessoas. Ele enfatiza ainda, as raízes judaicas de Jesus. De todos os
escritores dos Evangelhos só ele registra a circuncisão e dedicação de Jesus
(2.21-24), bem como sua visita ao Templo quando menino (2.41-52). Somente
ele relata o nascimento e a infância de Jesus no contexto de judeus piedosos
como Simeão, Ana, Zacarias e Isabel, que estavam entre os fiéis restantes
“esperando a consolação de Israel” (2.25). Por todo o Evangelho, Lc deixa
claro que Jesus é o cumprimento das esperanças do AT relacionadas à
salvação.
Um versículo chave do evangelho de Lc é o 19.10, que declara que Jesus “veio
buscar e salvar o que se havia perdido”. Ao apresentar Jesus como Salvador
de todos os tipos de pessoas, Lc inclui material não encontrado nos outros
evangelhos, como o relato do fariseu e da pecadora (7.36-50); a parábola do
fariseu e o publicano (18.9-14); a história de Zaqueu (19.1-10); e o perdão
do ladrão na cruz (23.39-43).
Lc ressalta as advertências de Jesus sobre o perigo dos ricos e a simpatia
dele pelos pobres (1.53;4.18; 6.20-21, 24-25; 12.13-21; 14.13; 16.19-31;
19.1-10).
Este evangelho tem mais referências à oração do que os outros evangelhos. Lc
enfatiza especialmente a vida de oração de Jesus registrando sete ocasiões
em que Jesus orou que não são encontrados em mais nenhum outro lugar (3.21;
5.16; 6.12; 9.18,29; 11.1; 23.34,46). Só Lc tem as lições do Senhor sobre a
oração ensinada nas parábolas do amigo importuno (18.9-14). Além disso, o
evangelho é abundante em notas de louvor e ação de graças (
1.28,46-56,68-79; 2.14,20,29-32; 5.25-26; 7.16; 13.13; 17.15; 18.43)
Cristo Revelado
Além de apresentar Jesus como o Salvador do mundo, Lc dá os seguintes
testemunhos sobre ele:
Jesus é o profeta cujo papel equipara-se ao Servo e
Messias (4.24; 7.16,39; 919; 24.19)
Jesus é o homem ideal, o perfeito salvador da humanidade. O título
“Filho do Homem” é encontrado 26 vezes no evangelho.
Jesus é o Messias. Lc não apenas afirma sua identidade messiânica, mas
também tem o cuidado de definir a natureza de seu messianismo. Jesus é,
por excelência, o Servo que se dispõe firmemente a ir a Jerusalém
cumprir seu papel (9.31.51). Jesus é o filho de Davi (20.41-44), o Filho
do Homem (5.24) e o Servo Sofredor (4.17-19, que foi contado com os
transgressores (22.37).
Jesus é o Senhor exaltado. Lc refere-se a Jesus como “Senhor” dezoito
vezes em seu evangelho.
Jesus é o amigo dos proscritos humildes. Ele é constantemente bondoso
para com os rejeitados.
O Espírito Santo em Ação
Há dezesseis referências explicitas ao ES, ressaltando sua obra tanto na
vida de Jesus quanto no ministério continuo da igreja.
Em primeiro lugar: a ação do ES é vista na vida de várias pessoas fiéis,
relacionadas ao nascimento de João Batista e Jesus (1.35,41,67; 2.25-27),
bem como no fato de João ter cumprido seu ministério sob a unção do ES
(1.15). O mesmo Espírito capacitou Jesus para cumprir seu ministério.
Em segundo lugar: O ES capacita Jesus para cumprir seu ministério—o Messias
ungido pelo ES. Nos caps 3-4, há cinco referencias ao Espírito, usadas com
força progressiva. 1) O Espírito desce sobre Jesus em forma corpórea, como
uma pomba (3.22); 2) Ele leva Jesus ao deserto para ser tentado (4.1); 3)
Após sua vitória sobre a tentação, Jesus volta para a Galiléia no poder do
mesmo (4.14) 4) Na sinagoga de Nazaré, Jesus lê a passagem messiânica: “O
Espírito do Senhor está sobre mim...”(4.18; Is 61.1-2), reivindicando o
cumprimento nele (4.21). Então, 5) evidência seu ministério carismático está
repleta (4.31-44) e continua em todo seu ministério de poder e compaixão.
Em terceiro lugar: O ES, através de oração de petição leva a cabo o
ministério messiânico. Em momentos críticos daquele ministério, Jesus ora
antes, durante ou depois do acontecimento crucial (3.21; 6.12; 9.18,28;
10.21). O mesmo ES que foi eficaz através de orações de Jesus dará poder as
orações dos discípulos (18.1-8) e ligará o ministério messiânico de Jesus ao
ministério poderoso deles através da igreja (24.48.49).
Em quarto lugar: O ES espalha alegria tanto a Jesus como à nova comunidade.
Cinco palavras gregas denotando alegria ou exultação são usadas duas vezes
com mais freqüência tanto Lc como Mt ou Mc. Quando os discípulos voltam com
alegria de sua missão (10.17), “Naquela mesma hora, se alegrou Jesus no ES e
disse...” (10.21). Enquanto os discípulos estão esperando pelo Espírito
prometido (24.49), “adorando-o eles, tornaram com grande júbilo para
Jerusalém. E estavam sempre no templo, louvando e bendizendo a DEUS”
(24.52-53)
Esboço de Lucas
I. Prólogo 1.1-4
II. A narrativa da infância 1.5-2.52
Anúncio do nascimento de João Batista 1.5-25
Anúncio do nascimento de Jesus 1.26-38
Visita das duas mães 1.39-56
O nascimento de João Batista 1.57-80
O nascimento de Jesus 2.1-40
O menino Jesus no templo 2.41-52
III. Preparação para o ministério público 3.1-4.13
O ministério de João Batista 3.1-20
O batismo de Jesus 3.21-22
A genealogia de Jesus 3.23-38
A tentação 4.1-13
IV. O ministério galileu 4.14-9.50
Em Nazaré e Carfanaum 4.14-44
Do chamamento de Pedro ao chamamento dos doze 5.1-6.16
O Sermão da Montanha 6.17-49
Narrativa e diálogo 7.1-9.50
V. A narrativa de viagem (no caminho para Jerusalém)
9.51-19.28
VI. O ministério de Jerusalém 19.29-21.38
Acontecimentos na entrada de Jesus em Jerusalém
19.29-48
História de controvérsias 20.1-21.4
Discurso escatológico 21.5-38
VII. A paixão e glorificação de Jesus 22.1-24.53
A refeição de Páscoa 22.1-38
A paixão, morte e sepultamento de Jesus 22.39-23.56
A ressurreição e a ascensão 24.1.53
João (Jo)
Autor:
Apóstolo João Data: Cerca de 85 dC
Autor
A antiga tradição da igreja atribui o quarto evangelho a João “o
discípulo a quem Jesus amava” (13.23; 19.26; 20.2; 21.7,20), que pertencia
ao “círculo íntimo” dos seguidores de Jesus (Mt 17.1; Mc 13.3). De acordo
com escritores cristãos do séc. I , João mudou-se para Éfeso, provavelmente
durante a guerra Judaica de 66-70dC, onde continuou seu ministério.
Data
A mesma tradição que localiza João em Efeso sugere que ele escreveu seu
evangelho na última parte do séc. I. Na falta de provas substanciais do
contrário, a maioria dos eruditos aceitam esta tradição.
Conteúdo
Enquanto era bem provável que João conhecesse as narrativas dos outros
três Evangelhos, ele escolheu não seguir a seqüência cronológica de eventos
dos mesmos como uma ordem tópica. Nesse caso, eles podem ter usado as
tradições literárias comuns e/ou orais. O esquema amplo é o mesmo, e alguns
acontecimentos em particular do ministério de Jesus são comuns a todos os
quatro livros. Algumas das diferenças distintas são: 1) Ao invés das
parábolas familiares, João tem discursos extensos; 2) Em lugar dos muitos
milagres e cura dos sinóticos, João usa sete milagres cuidadosamente
escolhidos a dedo que servem como “sinais”; 3) O ministério de Jesus gira em
torno das três festas da Páscoa, ao invés de uma, conforme citado nos
Sinóticos; 4) Os ditos “Eu sou” são unicamente joaninos.
João divide o ministério de Jesus em duas partes distintas: os caps 2-12 dão
uma visão de seu ministério público, enquanto os caps 13-21 relatam seu
ministério privado aos seus discípulos. Em 1.1-18, denominado “prólogo”,
João lida com as implicações teológicas da primeira vinda de Jesus. Ele
mostra o estado preexistente de Jesus com Deus, sua divindade e essência,
bem como sua encarnação.
Cristo Revelado
O livro apresenta Jesus como ó único Filho gerado por Deus que se tornou
carne. Para João, a humanidade de Jesus significava essencialmente uma
missão dupla: 1) como o”Cordeiro de Deus (1.29), ele procurou a redenção da
humanidade; 2) Através de sua vida e ministério, ele revelou o Pai. Cristo
colocou-se coerentemente além de si mesmo perante o Pai que o havia enviado
e a quem ele buscava glorificar. Na verdade, os próprios milagres que Jesus
realizou como “sinais”, testemunham a missão divina do Filho de Deus.
O Espírito Santo em Ação
A designação do ES como “Confortador” ou “Consolador” (14.16) é
exclusiva de João e significa literalmente. “alguém chamado ao lado”. Ele é
“outro consolador”, isto é, alguém como Jesus, o que estendeu o ministério
de Jesus até o final desta era. Seria um grave erro, entretanto, compreender
o objetivo do Espírito apenas em termos daqueles em situações difíceis. Ao
contrário,João demonstra que o papel do Espírito abrange cada faceta da
vida. Em relação ao mundo exterior de Cristo, ele trabalha como o agente que
convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16.8-11). A experiência
de ser “nascido no Espírito” descreve o Novo Nascimento (3.6). Como, em
essência, Deus é o Espírito, aqueles que o adoram devem fazê-lo
espiritualmente, isto é, conforme comandado e motivado pelo ES (4.24). Além
disso, em antecipação do Pentecostes, o Espírito torna-se o capacitador
divino para o ministério autorizado (20.21-23).
João revela a função do ES em continuar a obra de Jesus, guiando os crentes
e a um entendimento dos significados, implicações e imperativos do evangelho
e capacitando-os a realizar “obras maiores” do que aquelas realizadas por
Jesus (14.12). Aqueles que crêem em Cristo hoje podem, assim, enxergá-lo
como um contemporâneo, não apenas como uma figura do passado distante.
Esboço de João
Prólogo 1.1-8
I. O ministério público de Jesus 1.19-12.50
Preparação 1.19-51
As bodas em Caná 2.1-12
Ministério em Jerusalém 2.13-3.36
Jesus e a mulher de Samaria 4.1-42
A cura do filho de um oficial do rei 4.43-54
A cura de um paralítico em Betesda 5.1-15
Honrando o Pai e o Filho 5.16-29
Testemunhas do Filho 5.30-47
Ministério na Galiléia 6.1-71
Conflito em Jerusalém 7.1-9.41
Jesus, o bom Pastor 10.1-42
Ministério em Batânia 11.1-12.11
Entrada triunfal em Jerusalém 12.12-19
Rejeição final: descrença 12.20-50
II. O ministério de Jesus aos discípulos 13.1-17.26
Servir— um modelo 13.1-20
Pronunciamento de traição e negação 13.21-38
Preparação para a partida de Jesus 14.1-31
Produtividade por submissão 15.1-17
Lidando com rejeição 15.18-16.4
Compreendendo a partida de Jesus 16.5-33
A oração de Jesus por seus discípulos 17.1-26
III. Paixão e ressurreição de Jesus 18.1-21.23
A prisão de Jesus 18.1-14
Julgamento perante o sumo sacerdote 18.15-27
Julgamento perante Pilatos 18.28-19.16
Crucificação e sepultamento 19.17-42
Ressurreição e aparições 20.1-21.23